segunda-feira, 4 de junho de 2012

JORNADA DE TRABALHO – REFLEXÕES


Capa de minha edição.



Pensando o trabalho bancário à luz de Marx


El Capital

Magnitud del valor, tiempo de trabajo socialmente necesario


“La sustancia del valor es el trabajo. La medida de la cantidad de valor es la cantidad de trabajo…

(…)

La productividad, pues, del trabajo depende, entre otras cosas, de la habilidad media de los trabajadores, de la amplitud y eficacia de los medios de producir y de circunstancias exclusivamente naturales; por ejemplo:

La misma cantidad de trabajo está representada en 8 (ocho) fanegas de trigo, si la estación ha sido favorable, y en 4 (cuatro) en el caso contrario…(p.8)


Aqui temos uma citação muito importante para entender na categoria bancária a questão do sistema de metas e a eterna tentativa dos bancos de remunerar os trabalhadores por resultado baseado no atingimento de metas e não por suas jornadas corretas de trabalho – 6 horas diárias.

Essa é a lógica do capital de não pagar pela compra da força de trabalho por jornadas determinadas (limitadas) por uma legislação e por conquista oriunda das lutas dos trabalhadores.


CUMPRIR A JORNADA DE TRABALHO É META REALIZADA

Os bancários de uma agência trabalharam a mesma “jornada” na tentativa de oferecer produtos financeiros e no atendimento dos clientes e usuários.

Terem sido realizadas 8 ou 4 operações, ou seja, atender clientes e ou vendas de produtos naquela “estação” (naquele dia/jornada) é REALIZAÇÃO DE METAS, fruto das horas de trabalho de todos e não somente daqueles que finalizaram as operações.


“Por regla general, si la productividad del trabajo aumenta disminuyendo el tiempo necesario para la producción de un artículo, el valor de este artículo disminuye, y recíprocamente, si la productividad disminuye, el valor aumenta. Mas cualesquiera que sean las variaciones de su productividad, el mismo trabajo crea siempre el mismo valor, funcionando durante igual tiempo, solo que suministra en un tiempo determinado una cantidad mayor o menor de valores de uso u objetos útiles, según que aumente o disminuya su productividad…”


Aqui se fala do aumento da riqueza material, fruto da produtividade do trabalho humano:

“Aunque gracias a un aumento de productividad se produzcan en el mismo tiempo dos vestidos (roupas) en vez de uno, cada vestido seguirá teniendo la misma utilidad que antes de duplicarse la producción; pero con dos vestidos se pueden vestir dos hombres en lugar de uno; así, pues, hay aumento de riqueza material

Sin embargo, el valor del conjunto de objetos útiles sigue siendo el mismo: dos vestidos hechos en el mismo tiempo en que antes se ha hecho uno, no valen más de lo que precedentemente uno solo.” (p.8)


POR QUE ISSO OCORRE?

Porque a substância do valor de uma mercadoria está na força de trabalho acumulada nela:

“(...) las mercaderías revelan solamente que en su producción se ha gastado una fuerza de trabajo. De otro modo: que en ellas se ha acumulado trabajo…” (p.7)


OU SEJA,

Quanto mais clientes e mais contas abertas e mais produtos financeiros forem vendidos com a mesma quantidade de trabalho, maior será a produtividade e maior a criação de riqueza (quem se apropria dela?).

A quantidade de trabalho dos bancários na agência é medida pelas horas de trabalho somada da jornada de cada um deles, independente de qual deles finalizou a gravação de um produto ou operação qualquer.

“Cualquier modificación el la productividad que haga más fecundo el trabajo, aumenta la cantidad de artículos que ese trabajo proporciona, y por lo tanto, la riqueza material;

Pero no modifica el valor de esa cantidad, de ese modo aumentado materialmente, si continúa siendo idéntico el tiempo total de trabajo empleado en su fabricación…” (p.9)





COMENTÁRIO FINAL

É evidente que aqui não estamos abrangendo todos os outros fatores que existem no processo bancário como, por exemplo, as tarifas, os valores dos salários pagos por cada função dentro da agência, as horas extras não pagas  etc.

Na lógica colocada pelo capital, quando um ou outro bancário dentro da agência não atinge as metas, o sistema faz com que as pessoas sejam as culpadas, demitindo ou descomissionando aquelas de "menor produtividade". Pura invenção do capital, porque a produtividade só faz subir há décadas e não se paga mais salário aos bancários por esse sistema.

Para se pensar seriamente em qualquer discussão de jornada de trabalho bancária é necessário que o sistema seja outro, enfim, não o de ter função ou emprego em função de atingimento de metas e não por horas de trabalho e função determinada pelo tipo de serviço.

Bibliografia:
MARX, Karl. El Capital. Editorial ALBA. 1999, Madrid.

domingo, 3 de junho de 2012

TROIS COULEURS: BLEU - A LIBERDADE É AZUL

Capa do filme - fonte: Wikipedia.


Assisti ao filme A liberdade é azul (1993), do polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996). Primeiro filme da trilogia das cores.


A ESTÓRIA


Muito já se escreveu sobre o filme. Então, também comentarei aqui o meu sentimento de hoje.


O filme conta a estória de Julie (Juliette Binoche), que perde em um acidente de carro a filha de 5 anos e o esposo - um compositor famoso.


Após um primeiro momento de desespero por ter que viver após a perda de sua família, ela decide desfazer todos os vínculos com o passado e tentar sobreviver. A partir daí, acompanhamos a belíssima interpretação da bela Juliette Binoche em conduzir sua personagem a buscar se libertar de tão grande tragédia e seguir a vida.


Duas coisas ela carrega consigo daquela vida interrompida: um móbile de pedras azuis de sua filha e algo imaterial - a música que vinha sendo composta por seu marido (ou ela?) para um evento de unificação da Europa. A música está em sua cabeça e a domina em determinados momentos.


O filme transmite muita dor... isso é marcante nas expressões de Julie.


Também conta com algo forte nos filmes de Kieslowski: O ACASO que está em tudo na existência e muda o rumo constantemente das coisas.


INFORMAÇÕES EXTRAS


Ganhei a caixa com a trilogia (versão 2006, a mais completa) de meu amigo e companheiro de formação sindical - o mineiríssimo Carlindo de Oliveira, formador do Dieese. A versão tem mais de uma hora de extras. Partilho com vocês algumas informações que me surpreenderam como, por exemplo, a fala do Kieslowski pouco antes de morrer. Ele me deixou cismando.


- uma das cenas que nos doem as pernas durante o filme é aquela em que Julie sai raspando sua mão pelo muro e relva com muita raiva de tudo. A mão dela fica toda ferida. A CENA FOI VERDADEIRA!


Como eles precisavam gravar e não tinha proteção para a cena, Juliette Binoche fez aquilo de verdade e ficou com marcas na mão por quase um ano.


- Tem uma entrevista com Kieslowski feita após a gravação do terceiro filme da trilogia e pouco antes dele morrer. Ele me pareceu o técnico de futebol Muricy Ramalho dando entrevista. Seco, direto e reto na resposta.


O diretor Kieslowski afirmava ao entrevistador que havia se aposentado e que não iria fazer mais nada além de viver. O entrevistador ficou insistindo sobre o que ele ia fazer e ele disse: NADA! vou respirar, comer, dormir... viver como vocês brasileiros que gostam da vida!


QUEDEI CISMANDO na fala dele ao dizer que só fazia filme porque era a profissão dele. Sem essa de que era feliz com isso, ou que fazia o que gostava. Direto e simples assim!




COMENTÁRIOS E REFLEXÃO FINAL


A questão da LIBERDADE, do ACASO e do FAZER O QUE TEM QUE SER FEITO ficou na minha cabeça.


NÃO ACREDITO QUE SOMOS LIVRES. Como ser livres se nos apegamos a algo ou se algo se apega a nós e então criamos o vínculo e depois do vínculo o compromisso e por fim aquele negócio de ser responsável por aquilo que você cativou (vinculou)? Já vimos isso em Sartre.


O ACASO FEZ TODA A MINHA EXISTÊNCIA. Estou sindicalista, casado e com filho (que está me destratando com ingratidão) porque as coisas foram acontecendo e me tirando de coisas que eu buscava. Entrei no sindicato quando estudava para sair do bb e havia acabado de entrar na Usp. Virei pai, me esforcei para contribuir na formação daquele garotinho que agora se acha no direito de me desrespeitar.


Sobre FAZER O QUE TEM QUE SER FEITO digo somente que estou fazendo TUDO o que posso para ser um dirigente sindical, representante da classe trabalhadora. Não amo, não sou feliz com nada na minha vida, MAS ACORDO PARA FAZER BEM FEITO TUDO O QUE FAÇO, COM ÉTICA E CARÁTER. Só isso!


Quem acompanha meu blog sabe que eu sempre quis ser intelectual, ler e viver em função de estudar e ser um erudito. Não deu certo e não tenho tempo sequer de dormir ou praticar algum esporte hoje em dia.


Foda-se!


Amanhã vou ser um bom sindicalista. A vida vai me levar as pessoas que amo (como leva de todo mundo) e vou respirando, lutando e andando por aí. Ser assim a vida inteira nunca me atrapalhou fazer bem feito o que tem que ser feito.

domingo, 27 de maio de 2012

REFEIÇÃO CULTURAL - FAMÍLIA (e a saúde no Brasil)

Mãezinha, filho e sobrinha.
Como disse há um mês, tenho tido pouco tempo para postagens onde partilho o conhecimento que adquiro. Mesmo assim, à medida que vou lendo um pouco, escrevo algo a respeito aqui no blog.

Falarei hoje de família. Da minha família querida e das provações que estamos vivendo... e sobrevivendo até agora.

A casa de meus pais conta com três adultos e dois adolescentes. Minha avozinha de 88 anos vive com meus pais desde que minha querida tia Alice faleceu faz poucos anos.

O que descrevo abaixo é muito típico de uma família brasileira humilde, que não conta com plano de saúde, e que só sobrevive se conseguir ser atendida no SUS.

Minha tia e a vovozinha.
Meu paizinho querido tem vários problemas de saúde como, por exemplo, nefrocalcinose nos rins, teve um AVC tempos atrás e controla uma depressão originada por seus problemas. Poderia ter uma saúde melhor em seus quase 70 anos. Para complicar as coisas, ele sofreu um infarto em fevereiro e felizmente está conosco, apesar de estar muito debilitado.

Minha mãezinha, que cuida de minha avó 24 horas por dia, teve que se ausentar uma noite para acompanhar minha sobrinha internada por pneumonia. Neste dia, minha avó foi tentar andar sozinha e caiu fraturando o fêmur.
Minha mãezinha, meu filho e sobrinho.

Naquela semana, ficaram internadas no corredor do SUS minha avó e sobrinha, ambas aguardando atendimento. Minha mãe já não vinha bem de saúde desde o infarto de meu pai.

Minha sobrinha se recuperou, minha avó sobreviveu à cirurgia no osso e conseguiram estar todos em casa no último dia das mães. Eu não pude estar com eles, pois na divisão do parco tempo com a família, fiquei em casa com esposa e filho.

As agruras não acabaram. Na última semana minha avó voltou a ser internada e não está muito bem em sua recuperação. Passou uns três dias no corredor sem atendimento pois havia greve do funcionalismo.

A nova dificuldade veio com minha mãezinha que, após vários dias sentindo muita dor, teve que ser internada ontem e descobriu-se que ela está com a coluna fraturada. Terá um tratamento de meses e com riscos na medula.

Meu querido paizinho resistente.
A coitadinha está arrasada porque não pode mais acompanhar a minha avó internada porque está nas mesmas condições que ela.

Cheguei em Uberlândia hoje às 5 horas da manhã, vindo de um compromisso sindical em Belo Horizonte. Encontrei esta situação, que já vinha acompanhando por telefone nas últimas cinco semanas. É difícil ter cabeça para cumprir todos os meus compromissos como cidadão e militante. Mas estou cumprindo!

Meu pai voltou a sentir dores no peito. Minha mãe estará acamada por meses. Minha avó também. Quem cuida de quem? Eu moro a 600 km de distância.

SAÚDE PÚBLICA

Uma das maiores carências da população brasileira, principalmente a mais humilde, é um atendimento médico de qualidade e com respeito às pessoas. Queriam mandar minha mãe de volta com um analgésico e meu paizinho infartado e minha mãe não aceitaram e brigaram com as estagiárias até tirarem uma radiografia dela e ver que a situação era grave.

Foi um postagem desabafo.

A situação é tão complicada! A gente sente uma impotência tão grande! Eu nunca liguei pra dinheiro. Mas vejo que essa porcaria faz falta para os meus dependentes e agregados. As coisas serão como normalmente são para o povo sofrido de uma País e um mundo injusto...

terça-feira, 22 de maio de 2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO – Capítulo 2


Capa da primeira edição. Fonte: Wikipedia.


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO – ALDOUS HUXLEY, de 1932

CAPÍTULO 2

Após a visita dos estudantes pelas fases de reprodução dos diferentes tipos de humanos, agora o diretor do Centro mostra a eles os berçários e as salas de condicionamento Neopavloviano.

Será demonstrado às crianças como é que se condicionam bebês de oito meses, um grupo de deltas vestidos de cáqui, a odiar livros e flores. A lição é feita à base de choques e outros tipos de torturas vinculando livros e flores à dor e sofrimento.

“- eles crescerão com o que os psicologistas costumavam chamar ódio ‘instintivo’ de livros e flores. Reflexos condicionados inalteráveis. Manter-se-ão afastados de livros e de botânica por toda a vida...”.

O motivo de o Estado Mundial fazer condicionamentos como esse é evitar que as pessoas gostem de coisas gratuitas como admirar a natureza. Em vez disso, é possível condicionar as castas a consumir o serviço de transporte.

É lembrado aos estudantes o que era o conceito de “pais”. Todos ficam enrubescidos e constrangidos ao falar sobre o tema porque a reprodução humana no passado era vivípara.

Ao explicar o método de hipnopédia ou o princípio do sono-ensino, o diretor do Centro recorda aos alunos o caso do pequeno Reuben, um garoto que no passado dormiu ouvindo um discurso do antigo escritor George Bernard Shaw no rádio e acordou repetindo perfeitamente o discurso.

O escritor é descrito como um dos únicos que teve as obras autorizadas a chegar àquela época, 632 d.F (depois de Ford).

Ford é considerado uma divindade pois ao falar dele para as crianças, o diretor faz um sinal de T na altura do abdômen e o seu gesto é seguido por seus pupilos.

Vejam um exemplo do Curso Elementar de Consciência de Classe, aplicado para uma casta Beta pelo método hipnopédia enquanto os bebês dormem:

“-‘ ...todos se vestem de verde’, diz uma voz agradável, mas muito clara, começando no meio de uma frase, ‘e todas as Crianças Delta vestem-se de cáqui. Oh não, não quero brincar com Crianças Delta. E os Ipsilones são ainda piores. São tolos demais para aprenderem a ler ou escrever. Além disso, vestem-se de preto, que é uma cor detestável. Sou tão feliz de ser Beta’.”

É mole o conteúdo do curso de consciência de classe? Veja mais um trecho:

“As crianças Alfa vestem-se de cinza. Trabalham muito mais do que nós, porque têm inteligência extraordinária. Realmente, estou muito feliz de ser Beta, porque não trabalho tanto. Ademais, somos muito melhores do que os Gamas e Deltas. Os Gamas são estúpidos. Todos se vestem de verde e as crianças Delta vestem-se de cáqui...”.


COMENTÁRIO

É... esse é o admirável mundo novo de ontem que chegou hoje com leves alterações.

Os trabalhadores terceirizados são os Gamas, Deltas e Ipsilones. Olhe ao seu redor dentro da empresa onde você trabalha e veja o tratamento dispensado aos terceirizados...


O que são estes milhares de trabalhadores nas baias das centrais de televendas?

Oh brave new world!!!

O futuro de ontem é hoje!


Bibliografia

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Abril SA Cultural, São Paulo, 1981. Tradução de Felisberto Albuquerque.

domingo, 20 de maio de 2012

A diferente duração dos tempos de nossa vida

REFEIÇÃO CULTURAL 92


Capa do livro que comprei
para meu filho na exposição que fomos.


Estou aqui refletindo neste domingo à noite sobre a brevidade de alguns momentos da vida e também na longevidade de outros momentos. 


Pensando no quanto o tempo psicológico é completamente diferente do tempo real, aquele que marca os eventos astronômicos e que definem as horas do nosso mundo e de nossa existência.


O tempo real pode ser tão rápido que mal possa ser curtido. Pode ser tão lento que dure uma infinidade para passar.


Quando a gente trabalha muito, o fim de semana não dá para nada. Quando estamos em um momento feliz, ele voa e passa. Acabado, volta o tempo normal, chocho ou de agrura. Aí então, como demora a voltar um tempo de boa graça!


TEMPO RÁPIDO


Neste fim de semana, fui com meu filho ver a exposição O fantástico corpo humano. Foi um momento feliz. Meu filho e eu, pai e filho, saindo para uma exposição.


Eu aproveitei para explicar a ele um monte de coisas, pois fiz a metade de um curso de educação física e fui muito bom nas matérias de anatomia e biológicas. Eu estudava os corpos da faculdade toda semana e conhecia muito do tema. A exposição me fez recordar um tempo em que eu quase fui alguma coisa, quase tive uma profissão. Seria um bom profissional na área.


O que ficou daquele período foi um respeito pelo ser humano muito grande. Antes de estudar anatomia, tinha uma visão comum do "outro". Acho que aquela matéria me fez ser mais humanista. Depois o movimento sindical ajudou-me a melhorar muito como ser humano também.


Engraçado, após momentos idílicos com meu filho, experimentei horas depois explosões juvenis dele sem motivo aparente. Vai entender o ser humano... felizmente ganhei muita paciência em minha jornada de vida.


TEMPO LENTO


Assim como passou rápido o tempo que tive com meu filho, sei o quanto está longo o tempo de cada jornada diária na casa de meus pais, onde minha avó está acamada após a cirurgia pela queda e quebra do fêmur. Não está fácil a recuperação dela. O esforço de suas filhas sexagenárias - minha mãe e minha tia - está acabando também com a saúde delas. As coisas lá estão muito difíceis e cada hora cronológica deve estar demorando uma eternidade até o momento do pequeno repouso. Minha impotência de não poder fazer nada é dilacerante.


A BREVE EXISTÊNCIA DAS COISAS


Me tornei um escravo do tempo cronológico após os compromissos assumidos por mim com família e militância. Serei cobrado pelas partes interessadas no meu ser. Em minha casa, no trabalho, na casa de meus pais, serei cobrado por todos que me têm como seus.


Não há caminho, o caminho é andar como disse Antonio Machado.


Estou caminhando... há muito mato no caminho, mas tenho que caminhar.


Para quem conheceu tão bem o corpo humano, espero que o meu aguente. Essa máquina é tão maravilhosa, é ao mesmo tempo tão forte e tão sensível...


Que a minha suporte...
Que a de minha mãe suporte...


Precisamos do suporte uns dos outros...


Sempre...

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO – ALDOUS HUXLEY, 1932


Cabeça Mecânica, escultura de Haoul Hausmann, utilizada
na capa da edição que tenho.

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO – ALDOUS HUXLEY, 1932

CLÁSSICO DA LITERATURA INGLESA

Li este livro duas vezes, quase três, se contar todas as vezes que já o peguei para reler trechos ou capítulos.

É um dos livros de literatura mundial que abordam utopias sociais que merecem ser lidos de tempos em tempos. Ele foi escrito em 1932 e imaginou tanta coisa que o engenho humano criou nas décadas seguintes que não se deve deixá-lo de lado por muito tempo.

Li a primeira vez quando era adolescente e outra quando tinha uns trinta anos. Recuperei o volume da primeira leitura recentemente, quando meu primo me deu vários livros antigos do Círculo do Livro e outros da época, livros que foram minha fonte de iniciação de leituras nos anos oitenta. Meu primo comprava e eu tomava emprestado para ler. Eu não tinha recursos para algo além da sobrevivência.


CAPÍTULO 1

Relendo o primeiro capítulo, fiquei novamente estupefato ao pensar o quanto o autor já lidava nos anos trinta com tendências de avanços biológicos no campo da genética.

Início:

“Um edifício atarracado e cinzento de apenas trinta e quatro andares. Sobre a entrada principal, as palavras: Centro de Incubação e Condicionamento de Londres e, num brasão, o lema do Estado Mundial: Comunidade, Identidade, Estabilidade.”

O início da estória nos fala de uma sociedade do futuro (ano da estabilidade, 632 d.F.) onde as pessoas são reproduzidas em laboratório, fecundadas e separadas por características definidas propositadamente para gerar castas de seres humanos que exercerão papéis já determinados naquela sociedade mundial.

Os Alfas e Betas eram as castas com boa genética e os Gamas, Deltas e Ipsilones eram fabricados com adaptações genéticas para suportar trabalhos fabris e braçais terríveis.

A Estabilidade Social era alcançada pela produção de humanos em série definidos para realizar suas obrigações sem nenhum questionamento. O Processo Bokanovsky era o principal instrumento daquela estabilidade social. Através dele produzia-se vintenas de seres iguais para trabalhos uniformes.

Segundo o diretor do Centro, o segredo da felicidade e da virtude é: “gostar daquilo que se tem que fazer. Este é o propósito de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social do qual não podem escapar”.


COMENTÁRIOS

Para os amantes da leitura, em especial para as chamadas gerações Y e Z que ainda não leram o livro (que horror! A nominação lembrou-me o livro), fica a sugestão de fazê-lo.

Felizmente, é possível adquirir o livro em sebos por até R$ 5,00 bem como ler de forma eletrônica.

A cada capítulo, o leitor do século XXI ficará chocado com as previsões daquele “admirável mundo novo” que hoje é o nosso admirável mundo velho e que nos desafia a pensar mudanças para que não acabemos com o nosso admirável mundo humano.

Boa leitura...


Bibliografia

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Abril SA Cultural, São Paulo, 1981. Tradução de Felisberto Albuquerque.

domingo, 13 de maio de 2012

DUELO DE TITÃS - Remember Titans (2000)

Capa do filme lançado em 2000.


REFEIÇÃO CULTURAL 91


Hoje é domingo 13 de maio. A data marca no Brasil a publicação da Lei Áurea, assinada em 1888, que determinou o fim do direito oficial à escravidão de seres humanos negros.


Hoje também é dia das mães. O coração fica apertado em todas as pessoas que estão longe de suas mães ou que a perderam. O dia também aperta os corações das mães que perderam seus filhos.


O FILME


Assisti a este filme agora à tarde e ele me emocionou bastante. Ainda ontem, me perguntava por que não tinha nenhuma postagem de filmes com o ator Denzel Washington. Havia acabado de assistir ao ótimo filme O livro de Eli.


Duelo de Titãs é baseado em fatos reais e a história se passa nos EUA no ano de 1971. Eu tinha o filme em casa em fita VHS (será que a geração Y sabe o que é isso?). Compramos em uma liquidação de locadora quando a escola de meu filho pediu para os alunos assistirem ao filme para um trabalho sobre o tema.


A história é sobre a chegada de Herman Boone, um treinador de futebol americano (Denzel Washington), a uma pequena cidade da Virgínia que decide colocar juntos estudantes brancos e negros. Ele vem para substituir o branco Bill Yeast, o antigo treinador vitorioso por 15 temporadas (Will Patton). O desafio será vencer o ódio e o preconceito dos brancos contra os negros e fazer o time ser vencedor com esse novo perfil.


Acredito que o que nos toca muito é saber que essa porcaria de mundo é assim há tempos e que ainda vivemos sob a égide do preconceito e da discriminação, da xenofobia e da intolerância contra aqueles que são diferentes e não partilham da mesma origem, gostos e outros caracteres pessoais que a liberdade garante a qualquer pessoa no mundo.


DIA DAS MÃES


Hoje foi um dia de vitória para minha família mineira. Os últimos dez dias foram duros para nós. Minha avó de 88 anos caiu e quebrou o fêmur dias atrás enquanto minha mãe estava acompanhando minha sobrinha internada no SUS de Uberlândia.


O caso da vovó era de alto risco porque ela precisava operar e a operação era bem complicada. Deu tudo certo e minha família esteve com ela hoje. Infelizmente eu não pude estar lá porque também estou viajando muito a trabalho e não seria justo depois de três semanas fora de casa não estar aqui neste fim de semana.


CORRIDAS


Para não dizer que não falei das flores, consegui correr ontem e hoje. Para mim, poder correr é algo importante porque estou precisando buscar energia em algum lugar e com o esporte pode ser que eu a encontre.


É isso! Família reunida lá em MG com todos os doentes em casa, dois filmes bons vistos em minha casa e um pouco de exercício físico.

O PLANO PERFEITO – DE SPIKE LEE, 2006


Capa do filme. Divulgação.

O PLANO PERFEITO – DE SPIKE LEE, 2006

Com: Clive Owen, Denzel Washington, Christopher Plummer, Jodie Foster, Willem Dafoe e Chiwetel Ejiofor.

Atenção: este comentário revela a trama do filme. Caso você não tenha assistido, seria melhor vê-lo primeiro e ler o comentário posteriormente.

Em um recente módulo de formação sindical, nós discutimos acerca deste filme. Ele foi lembrado por um grupo de participantes como uma boa referência para se pensar em OBJETIVOS, ESTRATÉGIAS E TÁTICAS.

O início do filme é interessante. O mentor do assalto se apresenta e trabalha com as seguintes perguntas: quem, o que, onde, quando, por que e como?

QUEM?
Dalton Russel (Clive Owen) é o cara que planejou o assalto.

O QUE?
Assalto a banco.

ONDE?
Banco Manhattan Trust, Nova York.

QUANDO?
No tempo da ação do filme.

POR QUÊ?
Dalton diz que é porque ele pode.

COMO?
O filme contará como o assalto foi arquitetado.


OBJETIVO, ESTRATÉGIA E TÁTICAS

A interpretação que faço é uma leitura para desenvolver um pouco a ideia da importância do planejamento estratégico, onde é fundamental definir os objetivos a serem alcançados, a estratégia para se alcançar aqueles objetivos (como chegar lá) e as táticas para caminhar naquela estratégia (as trilhas, os desvios etc).

OBJETIVO

Roubar o banco pela questão básica de conseguir riqueza e roubar segredos do cofre 392 de posse do dono do banco Arthur Case (Christopher Plummer) que o incriminariam pelo enriquecimento ilegal baseado em crimes de guerra por ligações com o nazismo: papéis da época e um anel de família de banqueiros judeus, mortos em campo de concentração.

O objetivo inicial era roubar o banco e os segredos e desmotivar o dono a fazer queixa do assalto por não querer que o segredo fosse revelado, pois ele enriqueceu às custas das vítimas do holocausto – crime considerado como crime de guerra.

ESTRATÉGIA

Entrar no banco em horário de funcionamento e fazer dezenas de clientes como reféns e vestir todos da mesma forma que os assaltantes para não permitir a identificação do grupo que executa o plano.

Também fazia parte da estratégia, o líder do grupo ficar alguns dias dentro do banco, em fundo falso construído pelo bando, e depois sair tranquilamente pela porta da frente.


TÁTICAS

Várias táticas foram utilizadas pensando no plano inicial:

-usar raio infravermelho para desligar as câmaras de segurança;

-fazer pedido difícil de realizar como, por exemplo, conseguir um avião, para ganhar tempo na preparação do esconderijo;

-misturar pessoas do bando junto aos grupos de reféns para ninguém identificar ninguém etc.


MUDANÇAS TÁTICAS

Após encontrar uma quantidade enorme de diamantes junto com os segredos no cofre 392, o líder decide deixar o dinheiro e roubar os diamantes que não estavam registrados no banco. Deixando o dinheiro, não haveria roubo e os objetivos seriam alcançados, ou seja, adquirir riqueza e os segredos do cofre.

Outra mudança tática tem relação com o aparecimento do detetive Keith Frazier (Denzel Washington), do qual o líder admira a inteligência e a perspicácia.

Russel vê no detetive a possibilidade de ver o banqueiro denunciado por crimes de guerra.


ATUAÇÕES E ALGUNS COMENTÁRIOS

Vale destacar a excelente interpretação de Denzel Washington no papel do detetive Frazier.

O papel de vigarista de alto calão dado à Judie Foster (interpretando Madeline White).

Como sempre, são fantásticas as denúncias de Spike Lee sobre preconceito e discriminação.

-Que o diga o coitado do bancário com aparência de “árabe”;

-A questão do policial negro que está no comando;

-A cena do menino jogando videogame violento e explicando o mundo para o líder do bando é o máximo!


Bom filme! Para ver mais de uma vez.

sábado, 5 de maio de 2012

O LEVIATÃ - A LIBERDADE, por Thomas Hobbes


Capa da obra de 1651. Fonte: Wikipedia.


O LEVIATÃ - A LIBERDADE, por Thomas Hobbes

Partes do capítulo XXI e comentários meus

Pretendo abordar algumas situações a partir do que refleti lendo o capítulo: a situação de saúde de minha família, minha condição atual, o meu entorno.

CAPÍTULO XXI

DA LIBERDADE DOS SÚDITOS

“LIBERDADE significa, em sentido próprio, a ausência de oposição (entendendo por oposição os impedimentos externos do movimento); e não se aplica menos às criaturas irracionais e inanimadas do que às racionais. Porque de tudo o que estiver amarrado ou envolvido de modo a não poder mover-se senão dentro de um certo espaço, sendo esse espaço determinado pela oposição de algum corpo externo, dizemos que não tem liberdade de ir mais além. E o mesmo se passa com todas as criaturas vivas, quando se encontram presas ou limitadas por paredes ou cadeias; e também das águas, quando são contidas por diques ou canais, e se assim não fosse se espalhariam por um espaço maior, costumamos dizer que não têm a liberdade de se mover da maneira que fariam se não fossem esses impedimentos externos. Mas quando o que impede o movimento faz parte da constituição da própria coisa não costumamos dizer que ela não tem liberdade, mas que lhe falta o poder de se mover; como quando uma pedra está parada, ou um homem se encontra amarrado ao leito pela doença.”

1-   A forma como Hobbes descreve e conceitua temas é muito didática e interessante. Não prejudica a minha leitura não concordar com suas convicções religiosas ou políticas. A tipificação das coisas é que me agrada.

2-   Maquiavel fez o mesmo em O Príncipe quando descreveu os tipos de monarquias que existiam, bem como as vantagens e desvantagens em cada uma e o que ajudava ou prejudicava um monarca em manter o poder ou perdê-lo.

“Conformemente a este significado próprio e geralmente aceito da palavra, um homem livre é aquele que, naquelas coisas que graças a sua força e engenho é capaz de fazer, não é impedido de fazer o que tem vontade de fazer. Mas sempre que as palavras livre e liberdade são aplicadas a qualquer coisa que não é um corpo, há um abuso de linguagem; porque o que não se encontra sujeito ao movimento não se encontra sujeito a impedimentos. Portanto, quando se diz, por exemplo, que o caminho está livre, não se está indicando nenhuma liberdade do caminho, e sim daqueles que por ele caminham sem parar. E quando dizemos que uma doação é livre, não se está indicando nenhuma liberdade da doação, e sim do doador, que não é obrigado a fazê-la por lei ou pacto. Assim, quando falamos livremente, não se trata da liberdade da voz, ou da pronúncia, e sim do homem ao qual nenhuma lei obrigou a falar de maneira diferente da que usou. Por último, do uso da expressão livre-arbítrio não é possível inferir uma liberdade da vontade, do desejo ou da inclinação, mas apenas a liberdade do homem; a qual consiste no fato de ele não deparar com entraves ao fazer aquilo que tem vontade, desejo ou inclinação de fazer.”

3-   Essa ideia de livre-arbítrio tem suas consequências, mas deve ser respeitada e é preciso lidar com as consequências que podem ser muito dolorosas.

4-   Hobbes vai separar neste capítulo a liberdade natural da liberdade no homem artificial – Leviatã –, ou seja, no Estado. Vimos acima o conceito de liberdade natural.

(...)

“Mas tal como os homens, tendo em vista conseguir a paz, e através disso sua própria conservação, criaram um homem artificial, ao qual chamamos Estado, assim também criaram cadeias artificiais, chamadas leis civis, as quais eles mesmos, mediante pactos mútuos, prenderam numa das pontas à boca daquele homem ou assembleia a quem confiaram o poder soberano, e na outra ponta a seus próprios ouvidos. Embora esses laços por sua própria natureza sejam fracos, é no entanto possível mantê-los, devido ao perigo, se não pela dificuldade de rompê-los.”

5-   Volto a lembrar neste trecho que o objetivo de se criar um Estado é buscar a paz entre os homens, através de leis e pactos onde o homem que detém liberdade natural (chamada por Hobbes de lei de natureza) abre mão de parte dela para que os outros também abram.

“É unicamente em relação a esses laços que vou agora falar da liberdade dos súditos. Dado que em nenhum Estado do mundo foram estabelecidas regras suficientes para regular todas as ações e palavras dos homens (o que é uma coisa impossível), segue-se necessariamente que em todas as espécies de ações não previstas pelas leis os homens têm a liberdade de fazer o que a razão de cada um sugerir, como o mais favorável a seu interesse. Porque tomando a liberdade em seu sentido próprio, como liberdade corpórea, isto é, como liberdade das cadeias e prisões, torna-se inteiramente absurdo que os homens clamem, como o fazem, por uma liberdade de que tão manifestamente desfrutam. Por outro lado, entendendo a liberdade no sentido de isenção das leis, não é menos absurdo que todos os outros homens podem tornar-se senhores de suas vidas. Apesar do absurdo em que consiste, é isto que eles pedem, pois ignoram que as leis não têm poder algum para protegê-los, se não houver uma espada nas mãos de um homem, ou homens, encarregados de pôr as leis em execução. Portanto a liberdade dos súditos está apenas naquelas coisas que, ao regular suas ações, o soberano permitiu: como a liberdade de comprar e vender, ou de outro modo realizar contratos mútuos; de cada um escolher sua residência, sua alimentação, sua profissão, e instruir seus filhos conforme achar melhor, e coisas semelhantes.”

6-   Hobbes relembra a seguir que pela mesma lei de natureza ninguém é obrigado a se deixar matar por outro pelo pacto estabelecido para viver no Leviatã, nem mesmo o próprio Estado tem direito de matá-lo sem que ele se rebele.

(...)

A liberdade à qual se encontram tantas e tão honrosas referências nas obras de história e filosofia dos antigos gregos e romanos, assim como nos escritos e discursos dos que deles receberam todo o seu saber em matéria de política, não é a liberdade dos indivíduos, mas a liberdade do Estado; a qual é a mesma que todo homem deveria ter, se não houvesse leis civis nem nenhuma espécie de Estado.

(...)

Os atenienses e romanos eram livres, quer dizer, eram Estados livres. Não que qualquer indivíduo tivesse a liberdade de resistir a seu próprio representante: seu representante é que tinha a liberdade de resistir a um outro povo, ou de invadi-lo.

(...)

Quer o Estado seja monárquico, quer seja popular, a liberdade é sempre a mesma.”

7-   Hobbes reafirma aqui o que já discorreu em diversos capítulos sobre o soberano – rei ou assembleia – ter o poder total de decisão. Poder este concedido pelo povo (homens e mulheres), que abrem mão de parte de suas liberdades pelo pacto estabelecido para o convívio no Estado em busca de paz.

8-   Hobbes faz defesa da monarquia (abaixo) dizendo que a referência de governos populares vinculada à liberdade sempre fez sucesso porque nos povos antigos – gregos e romanos – havia autores de grande reputação que passavam adiante nos ensinamentos aos jovens a forma de governo deles mesmos - democracia. (A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, assim como a do próprio Hobbes no período em que vive)

(...)

“Nestas partes ocidentais do mundo, costumamos receber nossas opiniões relativas à instituição e aos direitos do Estado, de Aristóteles, Cícero e outros autores, gregos e romanos, que viviam em Estados populares, e em vez de fazerem derivar esses direitos dos princípios da natureza os transcreviam para seus livros a partir da prática de seus próprios Estados, que eram populares. Tal como os gramáticos descrevem as regras da linguagem a partir da prática do tempo, ou as regras da poesia a partir dos poemas de Homero e Virgílio. E como aos atenienses se ensinava (para neles impedir o desejo de mudar de governo) que eram homens livres, e que todos os que viviam em monarquia eram escravos, Aristóteles escreveu em sua Política (livro 6, cap. 2): Na democracia deve supor-se a liberdade; porque é geralmente reconhecido que ninguém é livre em nenhuma outra forma de governo. Tal como Aristóteles, também Cícero e outros autores baseavam sua doutrina civil nas opiniões dos romanos, que eram ensinados a odiar a monarquia, primeiro por aqueles que depuseram o soberano e passaram a partilhar entre si a soberania de Roma, e depois por seus sucessores...

HOBBES FALA AQUI DA LIBERDADE EM UM ESTADO

“Passando agora concretamente à verdadeira liberdade dos súditos, ou seja, quais são as coisas que, embora ordenadas pelo soberano, não obstante eles podem sem injustiça recusar-se a fazer, é preciso examinar quais são os direitos que transferimos no momento em que criamos um Estado. Ou então, o que é a mesma coisa, qual a liberdade que a nós mesmos negamos, ao reconhecer todas as ações (sem exceção) do homem ou assembleia de quem fazemos nosso soberano. Porque de nosso ato de submissão fazem parte tanto nossa obrigação quanto nossa liberdade, as quais portanto devem ser inferidas por argumentos daí tirados, pois ninguém tem nenhuma obrigação que não derive de algum de seus próprios atos, visto que todos os homens são, por natureza, igualmente livres. Dado que tais argumentos terão que ser tirados ou das palavras expressas eu te autorizo todas as suas ações, ou da intenção daquele que se submete a seu poder (intenção que deve ser entendida como o fim devido ao qual assim se submeteu), a obrigação e a liberdade do súdito deve ser derivada, ou daquelas palavras (ou outras equivalentes), ou do fim da instituição da soberania, a saber: a paz dos súditos entre si, e sua defesa contra um inimigo comum.”

(...)

“Entende-se que a obrigação para com o soberano dura enquanto, e apenas enquanto, dura também o poder mediante o qual ele é capaz de protegê-los. Porque o direito que por natureza os homens têm de defender-se a si mesmos não pode ser abandonado através de pacto algum.”

ALGUNS COMENTÁRIOS

Após ler sobre liberdade e ser livre, em relação ao corpo e à liberdade natural, fiquei pensando na situação em que se encontra minha família.

VOVOZINHA

Minha avozinha materna vive com meus pais desde o dia em que minha tia Alice morreu de câncer. Ela não pode ficar em pé sozinha porque tem apagões e cai. Isto aconteceu algumas vezes nos últimos três anos. Minha mãe viveu nesse período em função de não deixar minha avó cair.

Algumas vezes, quando minha mãe ou alguém que está por conta de olhar minha avó dá uma bobeada, a vozinha levanta sozinha e sai arriscando uma queda dizendo que não tem risco não.

Aconteceu que minha mãe foi acompanhar minha sobrinha internada no SUS e minha avó aproveitou para uma dessas escapulidas, sem chamar as duas pessoas que estavam olhando ela. Caiu e quebrou o fêmur. Apesar de toda a minha dor e pesar – e raiva também – como condenar o livre-arbítrio de minha avozinha por teimar em sair andando sozinha pela casa? Estamos torcendo pela recuperação dela, mas aos 88 anos sabemos que é muito difícil. Fique boa, vovozinha!

PAI

Meu querido pai enfartou no dia 1º de fevereiro deste ano. Por muito pouco não morreu. Já vinha de acúmulos de estresses por lutar por seus direitos contra o Estado. Antes de enfartar de madrugada, havia sido muito maltratado em uma repartição pública durante aquela tarde.

Após ficar com ele oito dias no SUS, fomos para a casa dele. Acabei discutindo com meu paizinho e fui embora logo, por ficar tentando proibi-lo de fazer as extravagâncias que os médicos avisaram, pois ele começou a fazê-las assim que chegou em casa.

Depois acabei compreendendo que nem eu nem ninguém temos o direito de proibi-lo de fazer algo. É a vida dele. E as brigas que ele faz por não concordar com coisas erradas e lutar por seus direitos é o que lhe motiva viver. Mesmo que morra se estressando e enfartando na próxima luta por seus direitos. É o livre-arbítrio dele! Tenho que aceitar isso.

EU MESMO

Estou trabalhando da hora que acordo até a hora de dormir faz um mês. Eu aceitei novos desafios no movimento sindical. Não quero deixar de fazer o que tenho que fazer.

Preciso ter informação e conhecimento sobre minha área - formação sindical – e sobre o Banco do Brasil. Mais que isso, eu tenho que fazer as coisas acontecerem. Por mais que pertença a um coletivo (movimento sindical) as duas coisas são bastante solitárias no que se refere a se preparar e encaminhar as ações e decisões.

Eu vou seguir me esforçando para desempenhar um bom papel. Estou sacrificando a mim e aos meus. Mas tenho a consciência tranquila de meu trabalho e minha militância. Isso ninguém me tira. É meu livre-arbítrio.

Aliás, se já é difícil ler a obra de Hobbes, imaginem vocês escrever esta postagem que gastei boa parte do dia de sábado para fazê-la? Mas eu não posso abandonar meu blog de cultura. Ele é o respiro que me sobra de alimento cultural.

Espero que gostem da leitura sobre o capítulo que destaquei acima.

Bye,


Bibliografia:
HOBBES DE MALMESBURY, THOMAS. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. Coleção Os Pensadores. Nova Cultural, edição 1999.


segunda-feira, 30 de abril de 2012

Artigo: A raça da universidade pública



José de Souza Martins*


Fonte: Estadão, 29 de abril de 2012


Para sociólogo, a falta de um sistema de cotas deixava de fora milhares de talentos potenciais de jovens que precisavam apenas de uma oportunidade e um desafio para mostrar do que são capazes


O julgamento da ação contra o regime de cotas raciais para ingresso na Universidade Nacional de Brasília é histórico porque leva a Justiça a decidir sobre os duradouros débitos de uma abolição mal feita da escravatura. A abolição não foi essencialmente motivada por intuitos humanitários nem pelo indiscutível reconhecimento da humanidade do negro em cativeiro. Nem o Estado nem os fazendeiros assumiram o ônus da escravidão que os beneficiara. Florestan Fernandes, em livro referencial da sociologia brasileira, já demonstrara os efeitos perversos dessa modalidade de abolição no estado de anomia e desorganização social, desamparo e pobreza, a que lançou o negro liberto. A abolição foi feita para libertar o senhor do fardo de seu escravo, cujo preço de mercado, com o fim do tráfico negreiro, tornou-o comparativamente oneroso e antieconômico em relação ao trabalho livre.

Em 1883, o abolicionista Joaquim Nabuco, que fora aluno da Faculdade de Direito de São Paulo, de uma rica família da Província de Pernambuco, publicou O Abolicionismo, um clássico do ideário da luta contra a escravidão. Nele, faz esta afirmação fundamental: “A emancipação não significa tão somente o termo da injustiça de que o escravo é mártir, mas também a eliminação simultânea dos dois tipos contrários, e no fundo os mesmos: o escravo e o senhor”. No entanto, citada como de outro autor, essa premissa fundamental não presidiu o embate judicial de agora nem influenciou a decisão final do STF. Embora estivesse em jogo a emancipação do povo brasileiro dos fantasmas das servidões que o assombram.

A escravidão indígena foi formalmente abolida em 1755 com o Diretório dos Índios do Grão-Pará e Maranhão e a escravidão negra o foi, como sabemos, em 1888. Invocou-o a vice-procuradora-geral da República, em citação incorreta, para explicar o fenômeno da miscigenação e impugnar a definição minimalista de negro na presente disputa, mesmo que a maioria dos negros seja constituída de mestiços, nem por isso menos negros. Alegou que a miscigenação entre nós foi produto de uma engenharia social dos tempos coloniais, que determinava “aos homens brancos a união com mulheres negras como uma estratégia de povoamento e de criação de força de trabalho escravo...”. Nada disso consta do Diretório que, para abolir a escravidão do índio e do pardo, suspendia as interdições estamentais que os alcançava e degradava socialmente o branco que casasse com índia. Era, juridicamente, outra escravidão.

O lugar desse equívoco ficou evidente na intervenção da representante do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro, que questionou o dualismo branco-negro que informava o julgamento e informa a controvérsia sobre as cotas. O censo demográfico de 2012 contou no país 48,2% de brancos, 6,9% de pretos, 44,2 de pardos e 0,7% de amarelos e índios, e lembrou que juntar negros e pardos numa única categoria, como se fossem todos negros, usurpa direitos de identidade dos pardos e mestiços.

A questão é mais complicada do que a de direitos supostamente gerados pela cor da pele e nem foi isso que o Supremo decidiu. O País discrimina e na discriminação é injusto. A cor da pele é o estigma de marca, como assinala Oracy Nogueira, em que se apoia o preconceituoso para discriminar. Se recorrêssemos a um dos mais insignes conhecedores da nossa questão racial, o sociólogo Roger Bastide, saberíamos que a negritude não está na cor da pele. Está nas estruturas profundas e oníricas da consciência negra. Nesse sentido, um número provavelmente expressivo dos que se consideram negros, no critério do regime de cotas, negros não são, não obstante a cor da pele, pois descendentes dos que no cativeiro foram culturalmente privados da alma dessa negritude. Estão crucificados no estigma.

A decisão do STF legitima uma tendência histórica do Brasil contemporâneo, que é a do deslocamento dos seus eixos de orientação política da referência clássica e meramente teórica do cidadão abstrato da doutrina, das classes sociais da teoria e dos partidos políticos das ideologias. Essa decisão põe no centro das demandas e tensões os grupos sociais discretos e restritos que, através dos movimentos sociais e das ONGs, falam e reivindicam hoje pelos carentes de todo tipo, os socialmente lesados e os vulneráveis.

A decisão afeta a universidade. Os negros beneficiados pelo regime de cotas têm demonstrado, segundo várias fontes, competência que os iguala aos seus colegas do regime tradicional. É evidente que o problema não está num suposto filtro racial para ingresso na universidade e sim no critério de recrutamento que deixa de fora milhares de competências e talentos potenciais de jovens que precisam apenas de uma oportunidade e de um desafio para mostrar do que são capazes. Afeta porque turba positivamente o privilégio dos que acham que, tendo ingressado na universidade, já não têm o dever de provar continuamente que têm direito de ocupar a vaga que nela ocupam. Agora, o terão.

*JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DEEXCLUSÃO SOCIAL E A NOVA DESIGUALDADE (PAULUS, 2009)