O anel de Polícrates – Machado de Assis, de 1882
Publicado originalmente em Gazeta de Notícias e depois reunido em Papéis Avulsos.
“A – Lá vai o Xavier.
Z – Conhece o Xavier?
A – Há que anos! Era um nababo, rico, podre de rico, mas pródigo...”
O conto tem umas tiradas muito legais. Veja esta a respeito da sociedade:
“Gostava da sociedade, mas não amava os sócios. Um amigo nosso, o Pires, fez-lhe um dia esse reparo; e sabe o que é que ele respondeu? Respondeu com um apólogo, em que cada sócio figurava ser uma cuia d’água, e a sociedade uma banheira – Ora, eu não posso lavar-me em cuias d’água, foi a sua conclusão”
Outra frase interessante sobre os limites da imaginação humana:
“Meu amigo, a imaginação e o espírito têm limites; a não ser a famosa botelha dos saltimbancos e a credulidade dos homens, nada conheço inesgotável debaixo do sol”
Agora, a reflexão principal da história é sobre a vida. A personagem principal observou um dia um sujeito fazer das tripas coração para não cair de um cavalo em meio à multidão e soltou seu asserto sobre a vida:
“... um dia, estando à janela, triste, desabusado das cousas, vendo-se chegado a nada, aconteceu passar na rua um taful a cavalo. De repente, o cavalo corcoveou-se, e o taful veio quase ao chão; mas sustentou-se, e meteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, ele teima; muita gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavalo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue-frio, a arte do cavaleiro. Então o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavaleiro não tivesse ânimo nenhum; não quis cair diante de gente, e isso lhe deu a força de domar o cavalo. E daí veio uma idéia: comparou a vida a um cavalo xucro ou manhoso; e acrescentou sentenciosamente: Quem não for o cavaleiro, que o pareça”
Vocabulário:
Caiporismo: sm. Bras. Má sorte ou infelicidade constante; azar, cabula, peso, urucubaca, macaca.
Nababo: sm. Pessoa rica, cercada de luxo.
Panegírico: sm. Elogio, louvor.
Taful: sm. Janota, casquilho.
(fonte: uol on line)
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Pai contra Mãe, conto de Machado de Assis de 1906
(a interpretação é de minha responsabilidade)
Aula do professor Hansen sobre Machado de Assis – Leitura do conto Pai Contra Mãe.
Palavras-chave: estilo; autoria; ponto de vista.
A autoria em Machado está presente no texto enquanto composição, ponto de vista, foco, perspectiva.
No ponto de vista do autor está a escolha das matérias sociais.
Matéria social: a escravidão
Conto publicado em 1906. O contexto da história se passa 50 anos antes. O leitor, dezoito anos depois de 1888, já teve a experiência da escravidão. A república era uma realidade. Milhões de negros estavam por sua conta e risco.
O título é autoral. Não é do narrador (que está dentro do texto). O título vai marcar mercadoria e direito autoral. Também posicionar o leitor sobre o que lerá.
“Pai contra Mãe”: a preposição indica oposição, choque, conflito. Aviso: leitor, você vai se chocar.
(Hansen faz uma fala sobre Marxismo e a contemporaneidade. Não há futuro, pois tudo é imediato. Antes, o presente era a negação; o futuro, era a esperança. Faz a marcação temporal dos anos 80, do século XX adiante – idéia moderna do imediatismo nas coisas. Disse que Bush e Lula são o resultado da atualidade: “tudo ralé”, segundo ele)
Hoje, somos desmemoriados. É proposital que as pessoas não se lembrem nem daquilo que fizeram ontem. Veja a rede mundial de computadores – internet: ela iguala tudo sem qualquer hierarquia. Dickens e as pirâmides do Egito e um acidente de trânsito têm o mesmo valor.
Hansen critica também a grande mídia que vive de “produzir realidades”. Ela escolhe o que criar, inventa a pauta.
O resumo disso tudo é que a literatura serviria para aprender “ficção” porque a realidade desmaterializou-se, virou também uma ficção.
O gênero conto
O gênero Conto tem origem nas formais orais de literatura. Mantém, então, a idéia de brevidade. Uma história só. É dialógico. Mimético. Em geral, tem um narrador que conta um enunciado: temos que confiar nele.
Os românticos passaram a usar a estrutura da crônica: curta, fala de algum fato e sem seqüência.
No conto, apesar do particular no personagem Cândido, sabemos ou percebemos as informações sociais e de contexto necessárias, como diz Lúcia Miguel-Almeida – vemos o ambiente e contexto através do personagem e não o inverso.
Ele não é negro. Mas, não é proprietário também, pois não tem ofício.
A crítica ainda se espanta com a literatura de Machado, pois ele trabalha com todos os sistemas, critica todos e tudo e mantém-nos em suspensão. Não se posiciona como autor. Alguns críticos até o criticam dizendo que isso é devido à sua epilepsia ou origem e/ou talvez por sua gagueira.
Machado faz uma representação dupla. Mostra várias perspectivas, pontos de vista.
Antonio Candido diz ser Machado a síntese do processo anterior até o tempo dele em relação a formação da literatura brasileira. E também seria o início de novos tempos.
Quando José de Alencar fala do amor, ideal liberal, isso não encontra base na realidade objetiva, ou seja, “as idéias fora do lugar” como diz Roberto Schwarz. O Brasil não é a Europa.
Hansen critica o fato da teoria do Schwarz sempre citar o mestre Machado só como exemplo de suas leituras machadianas e não o contrário. É uma interpretação, como outras possíveis, afinal, ficção não é ciência.
Não precisamos ficar interpretando este conto. Ele mostra um número de relações materiais vinculados à realidade.
Como é de costume, percebemos nos nomes das personagens a ironia ácida de Machado:
Cândido – alvo, branco. Neves – de novo, mais alvo que tudo.
Clara – idem. Tem duas falas básicas na história: “Deus nos há de ajudar...” e “Nossa Senhora nos dará de comer...”
“Não cito... senão...”: técnica do autor - duas negações equivalem a uma afirmação. Ele, Machado, relativiza tudo.
O grande artista se recusa a representar o horror, tentar sentir ou descrever o que outros sentiram. Nosso mestre faz uma descrição sucinta. Ponto. O leitor que trabalhe com a interpretação e sua própria imaginação.
“Não cuidemos de máscara...”, ou seja, vamos falar da realidade. Vamos ao que interessa.
A leitura comprova o aviso subentendido: de fato, o final da história é chocante!
Aula do professor Hansen sobre Machado de Assis – Leitura do conto Pai Contra Mãe.
Palavras-chave: estilo; autoria; ponto de vista.
A autoria em Machado está presente no texto enquanto composição, ponto de vista, foco, perspectiva.
No ponto de vista do autor está a escolha das matérias sociais.
Matéria social: a escravidão
Conto publicado em 1906. O contexto da história se passa 50 anos antes. O leitor, dezoito anos depois de 1888, já teve a experiência da escravidão. A república era uma realidade. Milhões de negros estavam por sua conta e risco.
O título é autoral. Não é do narrador (que está dentro do texto). O título vai marcar mercadoria e direito autoral. Também posicionar o leitor sobre o que lerá.
“Pai contra Mãe”: a preposição indica oposição, choque, conflito. Aviso: leitor, você vai se chocar.
(Hansen faz uma fala sobre Marxismo e a contemporaneidade. Não há futuro, pois tudo é imediato. Antes, o presente era a negação; o futuro, era a esperança. Faz a marcação temporal dos anos 80, do século XX adiante – idéia moderna do imediatismo nas coisas. Disse que Bush e Lula são o resultado da atualidade: “tudo ralé”, segundo ele)
Hoje, somos desmemoriados. É proposital que as pessoas não se lembrem nem daquilo que fizeram ontem. Veja a rede mundial de computadores – internet: ela iguala tudo sem qualquer hierarquia. Dickens e as pirâmides do Egito e um acidente de trânsito têm o mesmo valor.
Hansen critica também a grande mídia que vive de “produzir realidades”. Ela escolhe o que criar, inventa a pauta.
O resumo disso tudo é que a literatura serviria para aprender “ficção” porque a realidade desmaterializou-se, virou também uma ficção.
O gênero conto
O gênero Conto tem origem nas formais orais de literatura. Mantém, então, a idéia de brevidade. Uma história só. É dialógico. Mimético. Em geral, tem um narrador que conta um enunciado: temos que confiar nele.
Os românticos passaram a usar a estrutura da crônica: curta, fala de algum fato e sem seqüência.
No conto, apesar do particular no personagem Cândido, sabemos ou percebemos as informações sociais e de contexto necessárias, como diz Lúcia Miguel-Almeida – vemos o ambiente e contexto através do personagem e não o inverso.
Ele não é negro. Mas, não é proprietário também, pois não tem ofício.
A crítica ainda se espanta com a literatura de Machado, pois ele trabalha com todos os sistemas, critica todos e tudo e mantém-nos em suspensão. Não se posiciona como autor. Alguns críticos até o criticam dizendo que isso é devido à sua epilepsia ou origem e/ou talvez por sua gagueira.
Machado faz uma representação dupla. Mostra várias perspectivas, pontos de vista.
Antonio Candido diz ser Machado a síntese do processo anterior até o tempo dele em relação a formação da literatura brasileira. E também seria o início de novos tempos.
Quando José de Alencar fala do amor, ideal liberal, isso não encontra base na realidade objetiva, ou seja, “as idéias fora do lugar” como diz Roberto Schwarz. O Brasil não é a Europa.
Hansen critica o fato da teoria do Schwarz sempre citar o mestre Machado só como exemplo de suas leituras machadianas e não o contrário. É uma interpretação, como outras possíveis, afinal, ficção não é ciência.
Não precisamos ficar interpretando este conto. Ele mostra um número de relações materiais vinculados à realidade.
Como é de costume, percebemos nos nomes das personagens a ironia ácida de Machado:
Cândido – alvo, branco. Neves – de novo, mais alvo que tudo.
Clara – idem. Tem duas falas básicas na história: “Deus nos há de ajudar...” e “Nossa Senhora nos dará de comer...”
“Não cito... senão...”: técnica do autor - duas negações equivalem a uma afirmação. Ele, Machado, relativiza tudo.
O grande artista se recusa a representar o horror, tentar sentir ou descrever o que outros sentiram. Nosso mestre faz uma descrição sucinta. Ponto. O leitor que trabalhe com a interpretação e sua própria imaginação.
“Não cuidemos de máscara...”, ou seja, vamos falar da realidade. Vamos ao que interessa.
A leitura comprova o aviso subentendido: de fato, o final da história é chocante!
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Leitura de Lúcia Miguel-Pereira sobre Machado de Assis
"Quais eram até a publicação das Memórias Póstumas de Brás Cubas, os pontos culminantes do romance no Brasil? A Moreninha, o Guarani, a Iracema, as Memórias de um sargento de Milícias, a Escrava Isaura, a Inocência, em que, se se revelavam tendências e ângulos de apreciação diversos, havia um fim comum: o de buscar o homem brasileiro, nas suas origens selvagens, como fez José de Alencar, ou nos aspectos que foi posteriormente assumindo, como fizeram os demais..." (é meu o destaque da frase em negrito)
O que distanciou Machado dos demais foi "a direção, o alvo a atingir; o adjetivo brasileiro, limitador, caiu ou passou a segundo plano, permitindo que o substantivo homem se revestisse afinal, pela primeira vez em nossa literatura, de toda a sua significação".
Destaque importante para a mudança de objeto, de perspectiva na literatura de Machado: "A imensa distância que vai no romance, entre fazer ver as pessoas através do ambiente, e deixar perceber o ambiente através das pessoas, Machado de Assis a transpôs serenamente, sem auxílios nem hesitações".
E segue Lúcia dando um bom exemplo: "Será impossível, por exemplo, conceber a Moreninha sem Paquetá, mas Capitu não está em absoluto presa a Matacavalos, nem mesmo ao Rio, embora através dela se sinta a terra carioca".
O que distanciou Machado dos demais foi "a direção, o alvo a atingir; o adjetivo brasileiro, limitador, caiu ou passou a segundo plano, permitindo que o substantivo homem se revestisse afinal, pela primeira vez em nossa literatura, de toda a sua significação".
Destaque importante para a mudança de objeto, de perspectiva na literatura de Machado: "A imensa distância que vai no romance, entre fazer ver as pessoas através do ambiente, e deixar perceber o ambiente através das pessoas, Machado de Assis a transpôs serenamente, sem auxílios nem hesitações".
E segue Lúcia dando um bom exemplo: "Será impossível, por exemplo, conceber a Moreninha sem Paquetá, mas Capitu não está em absoluto presa a Matacavalos, nem mesmo ao Rio, embora através dela se sinta a terra carioca".
D. Benedita, conto de Machado de Assis de 1882
Conto publicado originalmente em 1882 em A Estação e incluído em Papéis Avulsos.
D. Benedita - de feições que eram "maduramente graves e juvenilmente graciosas". Isso em seus 42 anos feitos em 19/9/1869.
Neste conto, Machado se vale daquele uso comum nos romances de se dirigir às leitoras: "convido a leitora a observar-lhe as feições..."
Ao longo da história, o autor nos dá as dicas sobre as características da personagem que justificarão o final: "Creio que é bastante ver o modo por que ela compõe as rendas e os babadinhos do roupão para compreender que é uma senhora pichosa, amiga do arranjo das cousas e de si mesma".
Um momento interessante na obra: o narrador fala sobre técnicas narrativas. Veja só:
"Convenho que nem todas essas particularidades podiam estar nos olhos de Eulália, mas por isso mesmo é que as histórias são contadas por alguém, que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar o escondido"
Veja aqui outro sinal claro de Machado ao falar de livros da época da história e não esconder seu sentimento com relação aos romances românticos. Diz que a personagem adora romances - "D. Benedita ama os romances, é natural; e adora os romances bonitos, é naturalíssimo" - mas, pouco depois, sua filha - "abriu a porta, caminhou pé ante pé até o sofá, e acordou a mãe com um beijo".
Leitura enfadonha?!
Depois de resolvido o eixo da trama, que tratava de casar a filha, terminamos a obra com uma maldadezinha de Machado com a mãe pichosa, que andava ela, agora viúva, pensando se casava ou não casava com algum bom partido.
Vem-lhe "uma figura vaga e transparente, trajada de névoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam todos no ar..." e disse-lhe palavras sem sentido:
"-Casa... não casarás... se casas... casarás... não casarás... e casas... casando..."
Quem seria a figura?
"Meu nome é Veleidade"
Para facilitar, eis aqui o vocabulário (fonte Uol - Houaiss on line):
Veleidade: Acepções■ substantivo feminino
1 o grau mais baixo da volição; vontade inútil, imperfeita;
2 assomo de presunção, afetação ou vaidade. Ex.: teve a v. de apresentar-se como especialista em cronologia;
3 idéia caprichosa ou excêntrica que aflora à mente; fantasia. Ex.: veleidades de uma adolescente romântica;
4 ligeira tendência ou inclinação. Ex.: tem v. literárias, mas não é um escritor;
5 imprudência, leviandade, volubilidade.
D. Benedita - de feições que eram "maduramente graves e juvenilmente graciosas". Isso em seus 42 anos feitos em 19/9/1869.
Neste conto, Machado se vale daquele uso comum nos romances de se dirigir às leitoras: "convido a leitora a observar-lhe as feições..."
Ao longo da história, o autor nos dá as dicas sobre as características da personagem que justificarão o final: "Creio que é bastante ver o modo por que ela compõe as rendas e os babadinhos do roupão para compreender que é uma senhora pichosa, amiga do arranjo das cousas e de si mesma".
Um momento interessante na obra: o narrador fala sobre técnicas narrativas. Veja só:
"Convenho que nem todas essas particularidades podiam estar nos olhos de Eulália, mas por isso mesmo é que as histórias são contadas por alguém, que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar o escondido"
Veja aqui outro sinal claro de Machado ao falar de livros da época da história e não esconder seu sentimento com relação aos romances românticos. Diz que a personagem adora romances - "D. Benedita ama os romances, é natural; e adora os romances bonitos, é naturalíssimo" - mas, pouco depois, sua filha - "abriu a porta, caminhou pé ante pé até o sofá, e acordou a mãe com um beijo".
Leitura enfadonha?!
Depois de resolvido o eixo da trama, que tratava de casar a filha, terminamos a obra com uma maldadezinha de Machado com a mãe pichosa, que andava ela, agora viúva, pensando se casava ou não casava com algum bom partido.
Vem-lhe "uma figura vaga e transparente, trajada de névoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam todos no ar..." e disse-lhe palavras sem sentido:
"-Casa... não casarás... se casas... casarás... não casarás... e casas... casando..."
Quem seria a figura?
"Meu nome é Veleidade"
Para facilitar, eis aqui o vocabulário (fonte Uol - Houaiss on line):
Veleidade: Acepções■ substantivo feminino
1 o grau mais baixo da volição; vontade inútil, imperfeita;
2 assomo de presunção, afetação ou vaidade. Ex.: teve a v. de apresentar-se como especialista em cronologia;
3 idéia caprichosa ou excêntrica que aflora à mente; fantasia. Ex.: veleidades de uma adolescente romântica;
4 ligeira tendência ou inclinação. Ex.: tem v. literárias, mas não é um escritor;
5 imprudência, leviandade, volubilidade.
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
O Realismo em Machado de Assis, aula do prof. Hansen
Foto de William Mendes: Catedral de Florença - Itália. É uma das construções mais impressionantes que já vi na vida.
(Atualizado em 1/5/10)
(as interpretações da aula são de minha responsabilidade)
Machado foi um escritor extremamente culto e conhecedor, mesmo sem nunca ter saído do Rio de Janeiro.
Apesar de grato a José de Alencar, ele abominava o Romantismo. Achava que isso era uma bobagem. O Romantismo sempre foi associado ao Nacionalismo e ao Patriotismo e era uma coisa de Estado. Ser brasileiro era ser branco, proprietário, católico e da elite. Machado vai se contrapor a tudo isso.
Contexto: o Brasil quer ser uma nação capitalista, porém, sem consumidor proletário, pois era um país escravista.
Vemos aqui o núcleo da sociedade: família - patrimonialismo. O pai decide tudo quanto à mulher e filhos, escravos e bens, inclusive, quanto aos casamentos, para se arranjarem melhor as propriedades.
Machado foca o comportamento das mulheres, pois elas são controladas, ou seja, elas buscam burlar o controle, como a lei que cria o contraventor.
O homem, o proprietário, é violento até sem querer – é o seu papel em uma sociedade tal, ele precisa impor a ordem.
Branco proprietário = tem a posse do corpo.
Negro escravo = não tem nem a posse do corpo. É reduzido a uma coisa, não tem representatividade, não se fala a respeito.
Além dos negros, havia brancos e mestiços pobres. Viviam de expediente. Faziam favores e recebiam “benevolências” dos clãs, dos proprietários. Seriam depois denominados de jagunços, agregados, capangas etc.
Ecletismo do século XIX
Liberalismo - Igreja Católica Conservadora (quase sempre mancomunada com o status quo)
Evolucionismo – marxismo – teoria das raças (esta é fascista, no dizer do prof. Hansen)
Os “intelectuais” brasileiros adotam a linha inglesa, alemã e francesa de que há homens superiores (eles) e o "elo perdido" (os negros).
A linha Celta – portugueses e espanhóis – também é considerada inferior pelos europeus. Imaginem o que se daria (na visão deles) a América com negros, índios e ibéricos? “Uma raça degenerada”.
Determinismo e Naturalismo
O romance demonstraria o comportamento natural do animal homem:
XIX = burguesia cria normas = normal é quem segue as normas = casos e comportamentos habituais = a literatura usada como aparelho de controle ideológico.
A escola – igreja – hospital – hospício – governo – etc controlam a normalidade. São mecanismos de dominação, ou seja, ideológicos. (ideologia = universalizar o particular)
Tese de Araripe Júnior: Obnubilação = obstáculo + nublar
Justificar que o clima e o meio influenciam o homem. No trópico perdemos todo pudor, rigor. Aqui tudo vira moleza, barbárie, coisa de instinto animal.
Machado de Assis é um autor moderno. Não subordina a arte a nada, a não ser à própria arte. Critica o sistema e outras coisas: ironiza o clero; põe dúvidas sobre Deus; critica a ciência; inverte ponto de vista entre homem-mulher; etc.
O autor destaca a importância da perspectiva, do ponto de vista de diferentes personagens e representações sociais.
Marcas em Machado:
-Autor da descrença radical.
-Tudo é artifício.
-Nada é natural.
-Tudo tem uma leitura alta e baixa.
-Indeterminação.
-Sabotar a si mesmo.
Machado foi um escritor extremamente culto e conhecedor, mesmo sem nunca ter saído do Rio de Janeiro.
Apesar de grato a José de Alencar, ele abominava o Romantismo. Achava que isso era uma bobagem. O Romantismo sempre foi associado ao Nacionalismo e ao Patriotismo e era uma coisa de Estado. Ser brasileiro era ser branco, proprietário, católico e da elite. Machado vai se contrapor a tudo isso.
Contexto: o Brasil quer ser uma nação capitalista, porém, sem consumidor proletário, pois era um país escravista.
Vemos aqui o núcleo da sociedade: família - patrimonialismo. O pai decide tudo quanto à mulher e filhos, escravos e bens, inclusive, quanto aos casamentos, para se arranjarem melhor as propriedades.
Machado foca o comportamento das mulheres, pois elas são controladas, ou seja, elas buscam burlar o controle, como a lei que cria o contraventor.
O homem, o proprietário, é violento até sem querer – é o seu papel em uma sociedade tal, ele precisa impor a ordem.
Branco proprietário = tem a posse do corpo.
Negro escravo = não tem nem a posse do corpo. É reduzido a uma coisa, não tem representatividade, não se fala a respeito.
Além dos negros, havia brancos e mestiços pobres. Viviam de expediente. Faziam favores e recebiam “benevolências” dos clãs, dos proprietários. Seriam depois denominados de jagunços, agregados, capangas etc.
Ecletismo do século XIX
Liberalismo - Igreja Católica Conservadora (quase sempre mancomunada com o status quo)
Evolucionismo – marxismo – teoria das raças (esta é fascista, no dizer do prof. Hansen)
Os “intelectuais” brasileiros adotam a linha inglesa, alemã e francesa de que há homens superiores (eles) e o "elo perdido" (os negros).
A linha Celta – portugueses e espanhóis – também é considerada inferior pelos europeus. Imaginem o que se daria (na visão deles) a América com negros, índios e ibéricos? “Uma raça degenerada”.
Determinismo e Naturalismo
O romance demonstraria o comportamento natural do animal homem:
XIX = burguesia cria normas = normal é quem segue as normas = casos e comportamentos habituais = a literatura usada como aparelho de controle ideológico.
A escola – igreja – hospital – hospício – governo – etc controlam a normalidade. São mecanismos de dominação, ou seja, ideológicos. (ideologia = universalizar o particular)
Tese de Araripe Júnior: Obnubilação = obstáculo + nublar
Justificar que o clima e o meio influenciam o homem. No trópico perdemos todo pudor, rigor. Aqui tudo vira moleza, barbárie, coisa de instinto animal.
Machado de Assis é um autor moderno. Não subordina a arte a nada, a não ser à própria arte. Critica o sistema e outras coisas: ironiza o clero; põe dúvidas sobre Deus; critica a ciência; inverte ponto de vista entre homem-mulher; etc.
O autor destaca a importância da perspectiva, do ponto de vista de diferentes personagens e representações sociais.
Marcas em Machado:
-Autor da descrença radical.
-Tudo é artifício.
-Nada é natural.
-Tudo tem uma leitura alta e baixa.
-Indeterminação.
-Sabotar a si mesmo.
A Chinela Turca, conto de Machado de Assis - 1875
Foto de William Mendes: foto noturna de jardim em Turim, Itália.
(Atualizado em 1/5/10)
Conto publicado originalmente em A Época, no ano de 1875, e depois incluído em Papéis Avulsos, de 1882.
Enredo interessante. O personagem principal é o bacharel Duarte, rapaz que se arruma para ir ao baile encontrar a sua pretendida Cecília, mas que não consegue sair devido à visita inesperada do Major Lopo Alves, o qual está com ímpetos novos de escritor e quer que o moço conheça em primeira mão o drama de 180 páginas.
Machado dá uma reviravolta na trama quando transforma a realidade da história em conto policial e, ao final, retorna ao presente da enunciação.
Duarte, o moço da história, tira como ensinamento, após o pesadelo vivido (em verdade sonhado) durante a longa exposição do drama, que "o melhor drama está no espectador e não no palco".
Enredo interessante. O personagem principal é o bacharel Duarte, rapaz que se arruma para ir ao baile encontrar a sua pretendida Cecília, mas que não consegue sair devido à visita inesperada do Major Lopo Alves, o qual está com ímpetos novos de escritor e quer que o moço conheça em primeira mão o drama de 180 páginas.
Machado dá uma reviravolta na trama quando transforma a realidade da história em conto policial e, ao final, retorna ao presente da enunciação.
Duarte, o moço da história, tira como ensinamento, após o pesadelo vivido (em verdade sonhado) durante a longa exposição do drama, que "o melhor drama está no espectador e não no palco".
Na Arca, conto de Machado de Assis de 1878
Foto de William Mendes: vejam o que é a natureza! A geração seguinte desta flor lá em casa, mudou de violeta azul para violeta violeta.
(Atualizado 1/5/10)
Este conto foi publicado originalmente em O Cruzeiro, em 1878, e depois saiu em Papéis Avulsos.
Machado acrescenta três capítulos ao Gênesis e, com isso, acrescenta A Natureza Humana que, de certa forma, foi esquecida ou deixada de lado de propósito pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
A agudeza com que o autor observa o ser humano é ímpar em se tratando de seus contemporâneos. É um autor exigente em relação aos seus leitores. Escreveu para quebrar a ordem esperada e corriqueira com que se aguardavam o final e a economia em geral dos romances e contos na literatura de então.
Machado indetermina seus textos. Quando acham que ele seguirá o padrão esperado pelo estilo romântico, ou naturalista, ou realista, ele surpreende e indefine. Joga para o leitor o problema, ou no caso deste conto, o enigma proposto por Noé aos seus filhos que nada entendem quando ele diz a Deus:
“Eles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a Rússia?”
É mole!
Machado acrescenta três capítulos ao Gênesis e, com isso, acrescenta A Natureza Humana que, de certa forma, foi esquecida ou deixada de lado de propósito pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
A agudeza com que o autor observa o ser humano é ímpar em se tratando de seus contemporâneos. É um autor exigente em relação aos seus leitores. Escreveu para quebrar a ordem esperada e corriqueira com que se aguardavam o final e a economia em geral dos romances e contos na literatura de então.
Machado indetermina seus textos. Quando acham que ele seguirá o padrão esperado pelo estilo romântico, ou naturalista, ou realista, ele surpreende e indefine. Joga para o leitor o problema, ou no caso deste conto, o enigma proposto por Noé aos seus filhos que nada entendem quando ele diz a Deus:
“Eles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a Rússia?”
É mole!
domingo, 23 de dezembro de 2007
O Alienista, conto de Machado de Assis - 1881
Foto de William Mendes: reprodução de pintura rupestre de Lagoa Santa MG, no aeroporto de Confins.
(Atualizado em 1/5/10)
Ontem, reli o conto de Machado de Assis, O Alienista, republicado em 1882 em Papéis Avulsos. É a terceira vez que o leio. Li em 2001, 2005 e 2007. É interessante porque cada vez que lemos novamente um texto somos outro e isso traz novas leituras sempre.
Aliás, minha leitura atual é carregada pelo estudo recente de Machado com o professor Hansen na Faculdade de Letras. Aprendi muito sobre o autor.
Nuanças captadas na leitura:
História registrada nas crônicas de Itaguaí sobre o famoso Dr. Simão Bacamarte, casado com a viúva, 15 anos mais nova, D. Evarista - "não bonita nem simpática".
Em nome da Ciência, construiu a Casa Verde, asilo para alienados do mundo. Nobre objetivo: buscar o remédio universal contra a loucura.
Separou os loucos em duas classes: os mansos e os furiosos.
A ilustre dama D. Evarista... respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada... (aqui é importante lembrar do locus - sociedade brasileira do século XIX - patrimonialista, patriarcal, branca, católica, machista e escravista).
"-Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos..." (D. Evarista, infeliz, antes do presente - viagem ao Rio de Janeiro).
"-Quem diria que meia dúzia de lunáticos..." (Dr. Simão Bacamarte, entre dobrões de ouro e pagando o passeio à mulher).
"A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia".
Cidadãos recolhidos por diversas patologias: dissipação, alucinação, mania sumptuária... na "Bastilha da razão humana", como diziam seus opositores da Revolta dos Canjicas.
Ao final das experiências, informou o ofício da soltura dos pacientes que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto...
É loucura reunir um conjunto de qualidades morais e mentais em um determinado indivíduo...
Como tratou a loucura dos novos pacientes?
Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida, e o efeito era certo: a pessoa era "restituída ao perfeito desequilíbrio das faculdades...".
Itaguaí não possuiria um único cérebro concertado?
"Sim, há de ser isso", pensou ele.
Isso é isto: Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral...
Ao final, se internou na Casa Verde e lá morreu sem encontrar a cura para a sua perfeição.
Aliás, minha leitura atual é carregada pelo estudo recente de Machado com o professor Hansen na Faculdade de Letras. Aprendi muito sobre o autor.
Nuanças captadas na leitura:
História registrada nas crônicas de Itaguaí sobre o famoso Dr. Simão Bacamarte, casado com a viúva, 15 anos mais nova, D. Evarista - "não bonita nem simpática".
Em nome da Ciência, construiu a Casa Verde, asilo para alienados do mundo. Nobre objetivo: buscar o remédio universal contra a loucura.
Separou os loucos em duas classes: os mansos e os furiosos.
A ilustre dama D. Evarista... respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada... (aqui é importante lembrar do locus - sociedade brasileira do século XIX - patrimonialista, patriarcal, branca, católica, machista e escravista).
"-Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos..." (D. Evarista, infeliz, antes do presente - viagem ao Rio de Janeiro).
"-Quem diria que meia dúzia de lunáticos..." (Dr. Simão Bacamarte, entre dobrões de ouro e pagando o passeio à mulher).
"A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia".
Cidadãos recolhidos por diversas patologias: dissipação, alucinação, mania sumptuária... na "Bastilha da razão humana", como diziam seus opositores da Revolta dos Canjicas.
Ao final das experiências, informou o ofício da soltura dos pacientes que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto...
É loucura reunir um conjunto de qualidades morais e mentais em um determinado indivíduo...
Como tratou a loucura dos novos pacientes?
Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida, e o efeito era certo: a pessoa era "restituída ao perfeito desequilíbrio das faculdades...".
Itaguaí não possuiria um único cérebro concertado?
"Sim, há de ser isso", pensou ele.
Isso é isto: Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral...
Ao final, se internou na Casa Verde e lá morreu sem encontrar a cura para a sua perfeição.
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